Sons de Mercúrio: tarot, alquimia e muito rock and roll

Desde que Raul Seixas pisou sobre a Terra 10 mil anos atrás, não se tem notícia de artista, muito menos artista baiano, que tenha combinado com tanta destreza o bom e velho rock and roll com elementos do misticismo. Calma, não se tinha notícia, pois o Sons de Mercúrio está aí, e para ficar (e as resoluções do tarot não nos deixarão negar), resgatando não só a melhor versão de Raul, uma de suas influências confessas, como também o movimento da Tropicália.

Achamos que a intenção não é burlar as regras, mas usar a música para fazer refletir sobre as regras estão ditando nossas vidas, determinando quem devemos ser (e isso acaba deformando quem realmente somos).

Mohzah Nascimento - Sons de Mercúrio

Formado pelo duo Cartre Sans (voz, violão e piano) e Mohzah Nascimento (voz, violão e guitarra), Sons de Mercúrio é, conforme os mesmos se intitulam, um "laboratório musical alquímico" que surgiu da ideia de um
espetáculo e foi ganhando corpo na parceria dos artistas.

Duo alto-astral (Foto: Ayumi Mariana)

Lançado este mês, o álbum “O Eu Chamado e Outras Jornadas” fecha um ciclo iniciado em 2019 com “Entre Crendices e Amores Pagãos”, no qual canções se apropriam dos arcanos do tarot para falar da natureza humana, sentimentos pessoais e temas do cotidiano. "Nosso interesse por magia, cabala, alquimia, artrologia, psicologia, história e filosofia nos levaram rapidamente a conectar as canções ao Tarot, que é um oráculo antigo, carregado de história, tradições orais e mistérios. Por que não trazer esse material tão rico para as músicas?", é o que se pergunta Mohzah.

Uma dupla premiada: conquistas do Sons de Mercúrio

Se a estreia do duo rendeu o título de Melhor Disco Baiano do Ano em votação popular no tradicional portal El Cabong, o novo projeto chega com a chancela de ser um dos selecionados pelo “Prêmio das Artes Jorge Portugal 2020 - Premiação Aldir Blanc Bahia”, da Fundação Cultural
do Estado da Bahia (Funceb).

Vale destacar, ainda, que o álbum “O Eu Chamado e Outras Jornadas” têm apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia)
via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

2 Toques com Sons de Mercúrio

RC: É tanto quanto incomum uma banda usar o tarot como influência para musicas e letras, especialmente no rock. Por que essa referência é importante pro Sons de Mercúrio?

SDM: Sons de Mercúrio de um espetáculo cênico-musical idealizado por nós (Mohzah e Cartre) e realizado em 01 de novembro de 2017. A princípio, cada um iria apresentar canções de sua autoria, mas em algum momento decidimos que era mais interessante compor 10 canções para o momento.
Foi durante o processo de composição, por volta da terceira canção, que percebemos a existência de um personagem que transitava entre elas (que pode ser cada um de nós). Então passamos a imprimir essa intenção na escrita das demais. Nosso interesse por magia, cabala, alquimia, artrologia, psicologia, história e filosofia nos levaram rapidamente a conectar as canções ao Tarot, que é um oráculo antigo, carregado de história, tradições orais e mistérios. Por que não trazer esse material tão rico para as músicas?
O Tarot possui 78 cartas. São 56 arcanos menores, que representam nossos sentimentos e anseios, e 22 arcanos maiores, que representam os mistérios que habitam em nós. Optamos então por usar os arcanos maiores como guia na construção dessas canções, que resultaram no primeiro álbum, lançado em 2019 – “Entre Crendices e Amores Pagãos” – com 13 canções que se relacionam do MAGO à MORTE. Agora, com apoio da Lei Aldir Blanc Bahia, lançamos a obra que fecha o ciclo – “O Eu Chamado e Outras Jornadas – com 09 canções que se conectam da TEMPERANÇA ao LOUCO.
O mais bacana é que as canções também são extensões do que acreditamos e sentimos, então em verdade, elas também carregam nossa essência como pessoas e artistas. Por isso a referência dos arcanos é tão importante para nós: Estamos nesse plano e nesse tempo para uma jornada de autoconhecimento e de revelações.

RC- Tal como o mais famoso conterrâneo de vocês, Raulzito, podemos dizer que há uma intenção de burlar as regras e transformar uma infinidade de estilos e temas numa coisa só, a ponto de gerar um estranhamento no consumidor usual da música brasileira?

SDM: Raul com certeza é uma das nossas influências! Quando ele e Paulo Coelho criaram a Sociedade Alternativa, usaram como base estudos de Aleister Crowley, que era bruxo, fundou sua própria ordem (Astrum Argentum) e a filosofia de Thelema, que pregava a realização da vontade. E antes de Raul, esses mesmos ideais inspiraram o movimento da contracultura, que culminou no movimento Hippie, que tem como grande marco mundial o festival de Woodstock. Aqui no Brasil, a Tropicália também nasceu para se opor a um sistema opressor, e o resultado foi uma produção musical riquíssima. Então, achamos que a intenção não é burlar as regras, mas usar a música para fazer refletir sobre as regras estão ditando nossas vidas, determinando quem devemos ser (E isso acaba deformando quem realmente somos). Estamos passando por um momento dificílimo no Brasil e no mundo, onde movimentos opressores e de limitação das liberdades estão em crescente. Apesar da nossa obra se voltar mais para essa reflexão interior, não há como separar quem somos do que fazemos. Se somos melhores por dentro, a chance de sermos melhores em nossas relações sociais também são maiores. Acreditamos que pessoas melhores e mais resolvidas constroem um mundo melhor, menos preconceituoso, ganancioso e mais justo.
Quanto ao estranhamento que pode partir do público, podemos dizer que é natural, pois essa grande massa também está sob a tutela de grandes interesses de um mercado que dita o que deve ou não ser escutado. Então, além de tentar promover uma reflexão sobre quem somos, nosso som também vem para colocar o ouvinte nesse lugar desconhecido: Do que esses caras estão falando? A partir daí, quem se conecta começa uma grande jornada, e estamos aqui cantando e tocando ela.

Alquimia musical (Foto: Ayumi Mariana)

Toque extra:

RC: De onde tiraram esse nome tão louco: Sons de Mercúrio?

SDM: Quando decidimos montar o espetáculo em 2017, eu (Mohzah) tinha acabado de lançar um álbum chamado Minguante. Cartre tem um colar com um Sol, e daí teve a ideia de usar esse sol e a lua minguante como símbolos para a arte do espetáculo. Ocorre que ao começar a rabiscar a arte, Cartre logo a conectou com o símbolo de Mercúrio, que tem um sol, uma lua, e uma cruz onde cada ponta representa um dos 4 elementos.
Mercúrio (na mitologia romana) tem Hermes como deus correspondente na mitologia grega. Ele era responsável por levar mensagens para os demais deuses, sendo conhecido como “o deus mensageiro”. Ele também foi responsável por criar a Lira, instrumento que encantou Apollo, o deus da música. Tantas conexões nos levaram a “Sons de Mercúrio” – a música para nos conectar com nós mesmos e com o mundo, sendo uma mensageira nessa caminhada.

RC: Como preferem ser compreendidos, como os filhos ou a sonoridade de Mercúrio?

SDM: Acaba que a resposta anterior nos leva a essa. O bacana é que “Son”, na língua inglesa, significa “filho”. Então, pode-se dizer que somos os dois! Filhos de Mercúrio com a essência mensageira do deus, através da música!

E você, o que achou da sonoridade mística do Sons de Mercúrio? Conta pra nós aí nos comentários!

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