Slayyyter: Enquadrando a pior garota do mundo
Healing era, yoga mom, matcha e pilates: a cultura do wellness ditou parte das tendências de moda e comportamento em 2025. Sentindo aversão a noites viradas nas baladas, a “cool girl” acordava cedo e sem ressaca no sábado para correr 10 quilômetros e, depois, se encontrava com a amiga no café mais superfaturado da cidade para conversar sobre otimização do autodesenvolvimento e o poder das palavras de afirmação e manifestação.
Mas, seguindo o calendário normal das tendências digitais, a cultura do bem-estar enfraquece na indústria da moda e do comportamento na medida em que se populariza. E 2026, é claro, tem uma nova promessa.
A cantora Slayyyter, uma das novas divas do pop experimental, representa essa transição com clareza.
“Dinheiro, drogas, correntes no peito, aquela Celine vintage / Eu quero um cigarro”, ela canta no single “Beat Up Chanel$”.
No final de março, a artista lançou seu terceiro álbum de estúdio, “WOR$T GIRL IN AMERICA”. O disco estreou com mais de 3 milhões de streams no Spotify e já é o grande sucesso da carreira da cantora. O hyperpop característico de sua obra desde 2016 agora deixa os nichos e ganha espaço nos holofotes do mainstream.
Pior garota
O título do disco nasceu de uma expressão usada por skatistas no Missouri para identificar aquela garota que bebia demais (“a pior garota”), e a sonoridade do novo projeto traduz o peso dessa ideia. Hedonista nas letras e na estética sonora, “WOR$T GIRL IN AMERICA” é excessivo, explosivo e viciante.
Com uma aposta bem feita em proclamar, com orgulho, o caráter impulsivo e sem limites de sua persona, Slayyyter traça um caminho semelhante ao de Charli XCX em “Brat”.O disco é construído em cima de faixas que borram os limites entre música eletrônica e pop, entre o techno underground e o mainstream, com direito a vocais distorcidos, sintetizadores e experimentações não lineares.
Styling e identidade
Criada em um trailer no Missouri, no meio-oeste dos Estados Unidos, Slayyyter, anteriormente conhecida como Catherine Garner, baseia a narrativa estética de “WOR$T GIRL IN AMERICA” na atmosfera nada glamourosa do interior em que cresceu. Estradas, armas, neon e restos visuais de uma América pós-industrial são elementos escolhidos pela cantora nos clipes e campanhas fotográficas promocionais.


Botas altas, casacos de pele sintética expressivos, rendas, shorts jeans combinados com paetês são itens assinatura da cantora, referenciando o contexto interiorano em que cresceu. A artista retoma o indie sleaze, popularizado pelo Tumblr entre 2006 e 2012. Construído a partir da mistura do retrô dos anos 80, do grunge dos anos 90 e da ironia hipster, é definido por uma atmosfera hedonista, intencionalmente descombinada, que rejeitava a cultura dos influenciadores.
Na maquiagem, o delineado preto esfumado e torto,às vezes borrado. No clipe de “Gas Station”, ela troca o Louboutin por botas sujas de lama com um short jeans desbotado, um contraste que se estende para a moda.

Baby, she’s bored
Durante 2025, a indústria da moda foi dominada por cabelos alinhados e clássicos, maquiagem neutra,cortes retos e cores neutras nas peças de roupa. O lápis preto foi substituído pelo marrom, mais suave visualmente. O batom vermelho perdeu seu posto para o lápis de boca nude. O erro e a espontaneidade desapareceram.
A otimização e o bem-estar também dominaram os discursos das redes sociais: vision boards no Pinterest, check-ups mensais e a ditadura da meta diária de proteína. 2025 vendeu o estilo de vida perfeito da disciplina.
Os dados acompanham esse movimento: menos álcool, menos exposição, menos sexo entre os jovens. A vigilância digital criou um controle inconsciente,qualquer falha pode ser filmada e viralizada.
Mas a história não nos deixa negar que toda repressão gera excesso em seguida. É nesse ponto que Slayyyter ganha força: seu trabalho é praticamente uma ode ao desejo, seja de sair e ultrapassar limites, de viver sem cálculo, não importa. O que vale é a tal garota caótica, naturalmente interessante por ser quem é e não ligar para as imposições do mercado.

E a indústria da moda e comportamento é sensível a esse tipo de movimento tão bem executado por Slayyyter

2026 teve início, para variar, com um um cenário de instabilidade mundial. Conflitos internacionais variados, pressão econômica e insegurança cotidiana. O ideal de disciplina e bem estar perde seu apelo. A promessa por equilíbrio parece rasa e artificial, e assim, a busca por experiências intensas reaparece como reação.
Slayyyter, que nunca pareceu preocupada em vender ou hitar no TikTok ou no pódio do mainstream, acaba, ainda assim, tornando-se munição para uma nova trend de comportamento e estética. Na moda, nada se cria, tudo se copia, e nem a pior garota do mundo está acima (ou abaixo) desta lei.
Escute:

WORST GIRL IN THE WORLD TOUR: com DUAS datas no Brasil! Os shows acontecem dia 9 e 10 de outubro no Rio de Janeiro e São Paulo.







