Phoebe Bridgers “Lost Weekend”: o disco que vai mudar minha vida

Phoebe Bridgers “Lost Weekend”: o disco que vai mudar minha vida

No auge dos meus 47 anos, poucas vezes testemunhei a história sendo feita em formato de álbuns lendários sendo lançados. Poderia destacar, U2 “Achtung Baby”, Lorde “Pure Heroine”, Lemonheads “It’s a shame about Ray”, entre um top 10 que mal chegaria a 10. Mas é certamente um top no qual “Lost weekend”, o terceiro e mais demorado álbum da Phoebe Bridgers, chegou garantindo seu espaço. Sim, mesmo não tendo tido tempo suficiente para digerir todas as faixas, já considero não só o melhor do ano, mas um dos melhores de todos os tempos. O disco que, se não me matou, está prestes a mudar minha vida.

Ah, mas o que há de tão diferente e especial se, novamente, é mais daquele chororô sussurrado, a vibe de cortar os pulsos de tanta depressão reunida? Se eu conseguisse expor em palavras o “mojo” deste trabalho, eu o faria. Mas seria uma falácia afirmar que consigo explicar todas as nuances desse disco que parece ter vindo do futuro, ou pelo menos, um portal para um tempo que ainda desconhecemos. Tentando me comparar a uma criança de 8 anos, eu diria que “Lost Weekend” está para Phoebe Bridgers assim como “Kid A” está para Radiohead e “Pet Sounds” para os Beach Boys.

Abro um infame parênteses para citar também o “Love is Hell” do Ryan Adams, mas não quero criar polêmica, ainda mais por se tratar de um artigo sobre Phoebe Bridgers.

Se os dois álbuns anteriores, apesar de muito bons, soavam, digamos, inconsistentes no sentido de esclarecer quem era e qual a essência de Phoebe Bridgers (tanto é que ela foi recordista de featurings dos mais diversos artistas e gêneros nos últimos anos: versatilidade ou falta de identidade?), o terceiro é um tiro certo no coração dos incrédulos (como eu). Pois, acerto é o que ela mais faz nesta obra, em que até o ruído mais esquisito e irritante, cada som no background encontra razão de estar ali.

Com uma ordem de faixas que faz todo o sentido para aumentar a dramaticidade da sua narrativa, Phoebe nos conduz para um universo que extrapola sua melancolia. Mas o detalhe é que, aqui, nada soa over. Nem a tristeza que resvala faixa após faixa, deixando aflito quem busca por outro hit semi-alegre como foi o caso de “Motion Sickness”, “Kyoto” e “Lost Boys” (tá aí um padrão que Phoebe se recusa a alterar a cada álbum: canções comerciais a conta-gotas).

Em “Lost Weekend”, toda e cada sonoridade de “Lost Weekend” encontra sua redenção, seja numa mudança brusca de ritmo dentro da própria faixa, seja no alívio trazido pela faixa conseguinte. O disco abre com “The outside”, um voice effect metálico que remete ao “Transformer man” do Neil Young, o prenúncio de que será uma coleção de canções cujo único padrão similar é a transformação. Ver beleza na tristeza, tristeza na beleza. Alegria na nostalgia, nostalgia na alegria. E por aí vai.

E olha que, neste artigo, eu sequer cheguei nas letras, produção e participações desse disco. Impossível abranger tudo uma vez que essa obra, daqui a 10, 20, 30 anos ainda estará sendo decodificada e apreciada mediante todas as descobertas que a própria artista propõe aqui. Neste disco, Phoebe sublima suas influências mais diretas, como Elliott Smith, e, bem confortável em seu trono de diva do indie-folk recria o gênero, misturando eletrônico, country, synth e até valsa, deixando a comer poeira todos e todas notívagas no estilo, como é o caso de Gracie Abrams com seu triste e recente flop “Daughter from Hell”, que após o lançamento desta sexta-feira, soa como uma pálida tentativa de cópia.

“Lost weekend”, cujo termo remete a um certo fim de semana desperdiçado de John Lennon em busca de alento e balbúrdia, não tem nada de desperdício, muito menos de perda. Trata-se de uma das maiores dádivas de 2026 – uma espécie de mensagem cósmica espiritual que transpõe a música, a cultura, a arte e impacta no dia a dia, nos fazendo mais humanos e sensíveis para enxergar a beleza das nossas próprias perdas. Phoebe Bridgers killed me. Mas foi por um bom motivo, mudar minha vida como a de muita gente que se render a ela.

Marcos Tadeu

Marcos Tadeu

Jornalista, idealizador e apresentador do Rock Cabeça na 100,9 FM, Rádio Inconfidência FM (MG) desde 2016. Acima de tudo, um fã de rock gringo.