Devise: “Petricor” faixa a faixa

Em primeiro lugar, não dá para falar no segundo álbum da Devise, “Petricor”, sem antes destrinchar a personalidade tímida, generosa e empreendedora do seu líder, Luís Couto, um jovem de 28 anos fanático por Oasis e Cruzeiro (não necessariamente nessa ordem).

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Para começar, talvez você não estivesse lendo isto agora não fosse pelo entusiasmo desse mineiro de Bom Despacho, que aos 16 anos mudou-se para a capital  a fim de estudar para o vestibular de Administração (seu segundo ofício). Passou na Universidade Federal de São João Del Rei, onde conheceu o guitarrista Bruno Vieira.
“São João foi fundamental pra minha vida na música, ali tudo desabrochou. Formei e voltei pra BH. Hoje administro a empresa que meu pai fundou que é ligada à FGV. Por isso divido minha semana entre três cidades (BH, Bom Despacho e Divinópolis). Sim, moro em 3 casas diferentes”. Luís Couto
Agora,  uma singela revelação: graças ao feedback desse cara, eu percebi que o Rock Cabeça tinha um grande objetivo, no caso, projetar a música autoral que jorra no nosso país. Além da Devise, Luís responde pela Churrus, banda com forte influência do rock inglês post brit-pop, estilo Travis.

Mas volto a meados de 2016, quando me lembro bem desse moço me “cobrando” a versão online da entrevista da Devise que havia saído na Inconfidência. Foi então que eu também saquei o valor documental desse site para artistas que aguardam oportunidades na mídia convencional. E com o lançamento de “Petricor”, nada mais justo do que convocar o próprio vocalista/guitarrista da Devise para fazer um faixa a faixa desse trabalho.

Sobre Petricor

O álbum “Petricor” foi feito literalmente na raça, sem projetos de lei ou crowdfunding, o que torna o trabalho final ainda mais louvável, pois foi produzido essencialmente a partir da grana de shows, um dinheiro que saiu do próprio cachê dos músicos. A banda também participou do Converse Rubber Tracks, que “bancou” 2 dias de estúdio.

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“Petricor”, na explicação de Couto, é um termo bastante comum no interior. É um sinal da natureza para a chuva que se aproxima. Assim como a Devise se aproxima do mainstream do rock nacional, trabalho após trabalho. A Devise é um sopro de criatividade em um cenário em que os medalhões do rock não mais produzem algo 100% original e revolucionário.

Luís Couto, como todo bom mineiro introspectivo e cauteloso, sabe muito bem que comer pelas bordas é a melhor política para se chegar ao topo. E é isso que ele faz, ao apostar na sensibilidade de uma horda de fãs de Oasis esquecidos pela grande mídia por meio de uma parede de guitarras cuspindo riffs que eventualmente dialogam entre si, algo que o Oasis fez tão bem no derradeiro “Dig Out Your Soul” de 2008.

Além de selecionar com mão de ferro suas referências, Couto age nos bastidores como um manager da Devise e um mecenas local, indicando bandas irmãs para entrevistas e sempre estabelecendo contato com a mídia e empresários. Não por acaso, a banda é hoje presença garantida em vários eventos e festivais, apesar de todas as dificuldades naturais da cena.

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Álbum enxuto, com 8 faixas gravadas em vários estúdios, “Petricor” é Oasis do início ao fim, embora o próprio vocalista aponte outras influências também reconhecíveis na sonoridade. Esse é o triunfo, mas também não deixa de ser a zona de segurança da Devise em 2017, que ainda precisa se sujeitar à execução de covers para lotar casas de show e vender cerveja, assim como a maioria das bandas autorais vivendo em BH.

Luís – que tem no nome 4 letras, assim como Liam – divulga um som honesto, feito com paixão  – porém, ainda carece da pitada de porra-louquice e irresponsabilidade que fez a carreira do ex-vocalista do Oasis.  Falta sujeira nos vocais de Couto, ou simplesmente a auto-percepção de que a Devise é muito foda mesmo, e daí?

Mas enquanto Luís Couto não joga a televisão pela janela do hotel ou taca uma ameixa na cara de um dos integrantes da banda,  a Devise vai conquistando com glamour a parcela de fãs desamparada com o gap gerado pelo Skank pós-Maquinarama/Cosmotron e, claro, pela extinção do Oasis. O Petricor, aqui, anuncia que um gigante dos palcos está prestes a dominar o Brasil.

Faixa a Faixa de “Petricor” por Luís Couto

1. Canção Pro Vento

Quando começamos a trabalhar essa música, já sabíamos que seria a faixa de abertura do disco. Ela reúne várias das características fortes do nosso som. Rock’n’roll puro e simples, filha do britpop, um zelo pela melodia, batera e baixo fortes e guitarras colorindo cada parte, mas com uma dose de experimentação que não tínhamos tanto no primeiro disco. Essas experimentações somadas à textura que o Leonardo Marques criou na mixagem, trouxe a música exatamente pra atmosfera que queríamos. Acho que ela dá um bom recado do que vem a seguir. Talvez seja minha letra favorita, eu não sei ainda… é sobre liberdade, sobre todas as pressões que as pessoas exercem sobre a gente e todos as censuras e medos que a gente cria na cabeça.

2. Bodatista

Primeira parceria nossa com alguém fora da banda. O Matheus Lopes é um cara que a gente tem como um ídolo. Como eu e o Daniel tocamos com ele no Churrus, a gente tem a sorte de ouvir várias coisas legais dele que não entram nos discos. Ele apareceu com essa música e achava que não tinha a cara da banda. Aí perguntei se eu podia “roubar” pra Devise haha a música tava praticamente pronta, o Matheus é muito talentoso. A gente acrescentou umas coisas e fiz a letra depois que assistir o “Loki”, documentário sobre o Arnaldo Baptista dos Mutantes. É uma homenagem a ele e ao Kurt Cobain. Me emocionou muito o bilhete que o Kurt escreveu pra ele e a letra apareceu facilmente. Talvez tenha sido a que escrevi mais rápido.

3. Indra


Tivemos que ralar um pouquinho pra fazer esse som soar legal em português. Não foi fácil, um dos grandes desafios do “Petricor”, mas acho que ficou legal.

Filha do Black Rebel Motorcycle Club com Oasis, duas bandas que estão na minha lista de favoritas. Gosto bastante da linha de baixo e do timbre, com certeza dos melhores do disco. Conseguimos sons legais pras guitarras também. Muito fuzz pro Bruno (Mike) com a Les Paul em um Rockverb e foi a primeira vez que usamos um pedal oitavador em uma música nossa. Pra guitarra base usei uma semi acústica, um RAT no talo (muito mesmo) e um AC30 com umas regulagens que gosto. Nada mais.

Ninguém nunca comentou isso e podem achar que não tem nada a ver, mas gostar de Blur foi fundamental pra conseguir fazer essa música! E essa letra é um mistério por hora irrevelável, mas dá pra pensar umas teorias.

4. Qualquer Hora

Primeira música que escrevi pra esse disco e talvez por isso ela seja um elo tão importante na nossa história. Acho que ela tem elementos fortes das nossas duas “fases” e assim nos apontou alguns caminhos pra escrever esse segundo disco. É a música mais “limpa” em termos de mixagem (gravamos e mixamos em um estúdio diferente das demais músicas) e eu gosto disso porque ela nos tira um pouco de uma mesma estética, chamando atenção pra outros pontos da banda.

Vejo bastante influência de Hives, Strokes, Kilians (banda alemã que ouvi um bom tempo) e Skank, essa última abriu o horizonte quando só existia o riff de baixo e bateria. Eu acho que tem uma coisa meio Frusciante também. A gente é fã dele, solo e no RHCP. Acho que a letra é divertida e rancorosa, irônica também, gosto disso em letras.

5. O Que Vier

Um riff Stones com uma melodia “doce”, saindo um pouco do blues rock. Essa poderia vir do Strokes também, talvez. Strokes marcou muito a gente, é uma banda que hoje algumas pessoas têm um preconceito que eu não entendo, continuo achando os três primeiros discos geniais. É a letra mais esperançosa e alegre das oito faixas, fala sobre poder sempre recomeçar e que sempre alguém vai estar com você. Esse sentimento é o melhor que se pode ter. Em alguns momentos pensamos que essa música poderia estar um pouco “deslocada” do disco, mas acho interessante ter uma música como essa, que tira a banda e o ouvinte do lugar comum do álbum. E acho também que mesmo sendo um pouco diferente, depois da mixagem do Leo, ela ficou mais dentro do universo do “Petricor”.

6. 27

Temos uma influência muito forte do rock americano dos anos 90: Nirvana, Dinosaur Jr, Smashing Pumpkins, Guided By Voices, entre outras. Essa música é uma filha de todas essas bandas, com uma cara de Devise.
Essa letra eu escrevi numa “bad” enorme perto do meu aniversário de 27 anos. Foi uma época difícil de aceitar que eu estava vivendo e fazendo aniversário num mundo que as pessoas aprovam uns caras tipo Bolsonaro, ou que diziam “somos milhões de Cunhas”. O que eu tinha pra comemorar? Às vezes a gente sente que não tem nenhum lugar no mundo pra estar, né? Não temos muito esse lado político nas letras porque eu não sei escrever sobre esse tipo de coisa, eu acho. Mas o efeito que esse tipo de coisa causa em mim, eu não poderia deixar de dizer.

7. Por Perto

Uma melodia alegre com uma letra “triste”, de certa forma. Essa música mostra muito como ter mais de um projeto musical na vida é saudável pra uma banda. Influência clara do Churrus no nosso som. A gente deve muito ao Tulio, Matheus e ao Bruno, são nossos gurus. Teve uma outra influência importante, o DMA’s, que é uma banda australiana muito legal. Acho que é a banda nova que mais escutei no último ano. Foi a letra mais difícil de escrever do disco, com certeza. Difícil falar sobre ela também.

8. Oito Passos

Uma música espiritual com tudo que um britpop tem direito. Delays, reverbs, um teclado psicodélico que o Victor Magalhães (Congo Congo) criou com maestria e uma percussão mágica do Renato Moura (Pequeno Céu), que trouxe uma luz quando entrou no estúdio pra gravar com a gente. Tinha que ser ele pra nos ajudar a passar essa mensagem.
Essa é a faixa que nos fez pensar sobre o nome do disco. Durante todo o processo de composição, pre-produção e gravação desse trabalho, algumas experiências espirituais nos fizeram rever e entender muita coisa, eu acho. Só que a gente, em geral, é meio cético. Na verdade, acho que não somos tão assim mais depois disso tudo. “Petricor” representa muito bem esse encontro do espiritual com o cético. A chuva que é algo que “permeia” o céu chegando até o solo seco, que esperava por uma renovação tão necessária.

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