Crosby, Stills, Nash & Young: os Gritos Por Paz e Liberdade na Música dos Anos 70

Às vezes bem estreitas, escondidas, atrás de pequenas portas lotadas de adesivos, as lojas de disco se espremem entre os prédios nas ruas de Belo Horizonte. Um respiro de sobrevivência do antigo entre o moderno das fachadas de lojas, prédios e restaurantes por todo lado. Confesso que colecionar discos, hábito que vem crescendo durante a pandemia, nunca me cativou muito, mas o ato de entrar nas lojas parece me levar para outro mundo, como aquele buraco do coelho em "Alice no País das Maravilhas". A ideia de uma biblioteca musical que estampa materialmente uma mistura de contextos, falas, protestos, momentos, pessoas consegue me encantar bastante. Até porque, ali, encontram-se, além das produções musicais, que nos apresentam de certa forma a outras realidades, pessoas cheias de história e de vontade de conversar sobre música.

E bem, no meio musical, explorar as experiências de cada um, conversar, buscar conhecer nas falas dos mais experientes as sonoridades de outro tempo, é sempre revelador.

Foi em uma dessas lojas de disco belo-horizontinas, abarrotadas de obras inesquecíveis e outras também já esquecidas pela sociedade consumidora de streamings, que encontrei José Malaguth, um homem que por vezes estava ali, devidamente mascarado e distante, trocando ideias com quem entra na loja. Identifiquei-me tanto com sua personalidade falante, assim como a minha, que facilmente estabelecemos pontes entre nosso tempo e os anos 1970, momento de sua juventude. Uma década que, particularmente, chama muito minha atenção tanto no âmbito histórico quanto no cultural. Foi da nossa conversa que surgiram as principais ideias e conexões para este texto. Nela, notei quão rica torna-se uma experiência sonora quando compartilhada.

Foto tirada por José Malaguth enquanto conversávamos em sua loja

Em meio a uma diversidade gigantesca de artistas e de grupos que nasceram do ambiente efervescente da contracultura, admito que um deles me fascina com certa particularidade: o quarteto Crosby, Stills, Nash & Young. Algo que me aproximou ainda mais de José, também um grande fã dos quatro e há muito mais tempo do que eu. Não é de surpreender que um supergrupo como tal produziria obras tão marcantes, afinal, todos eles já haviam participado antes de outros grupos famosos donos de discografias incrivelmente ricas. David Crosby vinha dos The Byrds e Graham Nash do britânico The Hollies, enquanto Stephen Stills e Neil Young renasciam das cinzas de Buffalo Springfield. Enquanto escrevo essas linhas, com os olhos cansados de fitar as telas, escuto a produção desses artistas nos variados projetos que se dedicaram ao longo da vida - ora solo, ora em grupos - e confesso que as palavras até correm melhor.

Crosby, Stills, Nash & Young

Na época da formação do quarteto, os Estados Unidos eram assolados por um sentimento revolucionário de busca pela quebra dos padrões sociais dominantes. No segundo pós-guerra, o país continuava a investir em conflitos armados em uma escalada militar na guerra do Vietnã, enquanto o desgosto com o contexto de violência interminável aumentava exponencialmente, principalmente entre os jovens. Não bastassem os efeitos genocidas do projeto industrial-militar do país, havia a ameaça de destruição nuclear da guerra fria. Em reação à conjuntura, no final da década de 1950, surge o movimento hippie como anseio pela construção de uma sociedade alternativa. Os ideais revolucionários dessa contracultura
perdurou longamente, mutando-se e tornando-se cada vez mais hibridizados nos anos 1970, quando o grupo se uniu.

Enquanto isso, no Brasil, o sentimento de revolta era parecido. Em um país dominado pela ditadura militar desde 1964, a esfera cultural sofria censura e repressão constantes. Vista com suspeição a priori, pois era considerada lugar em que “comunistas” e “subversivos” se acomodavam, o meio era alvo de constante vigilância. As produções cinematográficas que estampavam os encontros festivos e rebeldes dos festivais norte-americanos aos poucos chegavam aos territórios brasileiros, e, assim, a filosofia pacifista, humanista e questionadora da contracultura estadunidense entremeava-se aos anseios nacionais de liberdade e transformação política e social. Em reflexo, vários festivais foram realizados no Brasil inspirados pelas produções norte-americanas, como o Festival de Guarapari, o Concerto Pirata, o Dia da Criação e o Festival de Águas Claras. Bandas como O Terço, Novos Baianos, Casa das Máquinas, Som Imaginário, entre outras, realocaram os ideais da contracultura para uma realidade brasileira que vivia sobre o estigma da repressão e censura ocasionado pela ditadura militar.

Em Belo Horizonte, na época, José Malaguth conheceu o grupo Crosby, Stills, Nash & Young justamente por um documentário, o “Woodstock - 3 Dias de Paz, Amor e Música”. O show no festival foi o segundo do quarteto, antes mesmo de entrar no estúdio. Já de cabelos compridos e calças boca de sino, símbolos do movimento hippie, José encantou-se com a apresentação dos artistas no evento que foi a maior expressão em massa dos movimentos em voga.

No Brasil da época, tais símbolos se ligavam a uma imagem múltipla do movimento hippie, por alguns, vistos como legítima crítica social, por outros, como marginais, associados a casos policiais e criminalísticos ou, às vezes, simplesmente como malucos. O colecionador de discos, que de alguma forma participava das ondas do movimento, identificou-se, na época, com a canção “Almost Cut My Hair” de Crosby, Stills, Nash & Young. Lançada no álbum Déjà Vu, primeiro disco do grupo, a música refletia justamente as crises existenciais que afligiam os jovens revolucionários setentistas.

Além de popularizar a ideia do cabelo comprido como símbolo da contracultura e de oposição aos valores estabelecidos, a composição de David Crosby expõe a paranoia que cercava tanto os próprios estadunidenses, quanto os brasileiros, de estarem sempre sendo vigiados pelo regime: “Isso aumenta minha paranóia/ Como olhar no meu retrovisor e ver um carro da polícia”. Isso porque nos dois países, os cidadãos, principalmente os mais ativos nas lutas políticas, eram atormentados pela repressão policial intensa, ou melhor, mortal. No Brasil, foi algo que se fortificou ainda mais após o AI-5, que declarou combate massivo às manifestações estudantis.

Malaguth conta com naturalidade o dia em que foi preso por simplesmente manifestar em Belo Horizonte. Não só ele, mas mais de 400 estudantes. Por sorte, ou talvez pela impossibilidade da penitenciária abarcar tanta gente, foi liberado após três dias. Mas o medo era constante, assim como a repressão do regime às liberdades. Os policiais rondavam a Universidade Federal de Minas Gerais, onde os Diretórios Acadêmicos se enchiam de discos e de anseios democráticos. José era o que geralmente organizava as faixas. Os alunos escutavam o quarteto CSNY com intensidade, assim como grupos brasileiros que também expressavam a revolta desses tempos, como Novos Baianos, Som Imaginário e Secos e Molhados.

Nos Estados Unidos, a atmosfera violenta era parecida, imagino que, por isso, os dois mundos se misturaram tão facilmente no âmbito artístico. Após anos de protestos e de manifestação de ideais revolucionários, os assassinatos de Martin Luther King e de Bobby Kennedy em 1968, mostraram que o sistema não seria rompido facilmente. A frustração dos
anseios hippies de uma sociedade pacifista e humana ampliou-se ainda mais com a posse do presidente Richard Nixon em 1969. O presidente rompe com as demandas do fim da guerra, ao anunciar em 30 de abril de 1970 que enviaria tropas para o Camboja. Desde então, os protestos estudantis multiplicaram-se nos campus universitários, que, em grande parte, foram invadidos pela Guarda Nacional.

A repressão policial foi mais violenta do que nunca. No estado de Ohio, na Universidade Kent State, guardas abriram fogo contra um grupo de manifestantes desarmados no dia 4 de maio de No total, os soldados dispararam 67 tiros de rifle M-1. No curto espaço de 13 segundos,
mataram quatro jovens, Jeff Miller, Allison Krause, Bill Schroeder e Sandra Scheuer, e mais nove foram feridos, sendo que um deles ficou paralisado. Enquanto o país era assolado pelas repressões mortais da Guarda Nacional, nem o sucesso estrondoso do disco Déjà Vu, lançado em março, estava sendo capaz de mitigar as tensões do grupo Crosby, Stills, Nash & Young.

Dias depois do massacre de Kent, porém, um exemplar da revista Life mudaria os rumos da banda. Entre as páginas, David Crosby destaca para Neil Young a famosa foto de uma jovem chamada Mary Ann Vecchio ajoelhada sobre um estudante caído chamado Jeffrey Miller, durante os protestos da Guerra do Vietnã no campus da Kent State University. Miller havia sido morto por uma das balas atiradas pela Guarda Nacional de Ohio. O sentimento de desespero e tristeza que a foto expressa cruamente foi o que inspirou um dos maiores hinos do movimento anti-Guerra do Vietnã.

Depois de analisar o que Crosby o mostrava, Young saiu com sua guitarra para a floresta nos arredores da casa onde estavam e, depois de pouco mais de uma hora, apareceu com a música “Ohio” pronta. Os outros integrantes ficaram tão impressionados com a potência da canção que em menos de 24 horas estariam em estúdio para gravá-la. Como resumiu bem a matéria realizada pela revista Rolling Stone: “After the Kent State Massacre, ‘Ohio’ Spoke to the Country — and Helped Save CSNY”, o sentido em lançar uma música de protesto em um período atordoador guiou os artistas que, por diversas vezes, não tinham nem vontade de dividir o mesmo estúdio. Em “Ohio”, depois de um dia de ensaio, em duas tomadas sem overdub,
tinham uma faixa finalizada.

Crosby, Stills, Nash & Young

À harmonia de vozes característica do supergrupo foi somada um tom gritado, forte. A sensação de estar ouvindo várias vozes em uníssono corrobora para a sensação de protesto realmente. Mesmo com as tensões comuns do grupo, ao ouvir a música, a sensação é de que os artistas estão unidos, mas pela indignação. As vozes harmônicas interrompidas no final
pelos gritos improvisados por David Crosby ( “Quatro”/“Quantos mais?”) capturaram a angústia e revolta de uma geração.

Como destaca a matéria do revista Esquire, “50 Years Ago Neil Young Wrote a Song That Changed a Generation of Protest Music”, a canção liberou um espírito inquieto em Young que permaneceu tão durável quanto seus riffs de guitarra instantaneamente reconhecíveis ou vocais únicos. Antes de “Ohio”, não havia nenhuma indicação real do cantor de protesto que ele estava prestes a se tornar, inclusive era o menos provável a compor algo do tipo no grupo. No seu próximo disco, no entanto, já mostrava os rumos mais engajados que seguiria. “After the Goldrush” contou com críticas ao racismo no Sul dos Estados Unidos e com versos que já apontavam o engajamento de Young com questões ambientais.

A letra de “Ohio” é simples, mas isso só fortalece sua ligação com os clamores que inundam qualquer manifestação política. Sintetizam com força o sentimento da época, a angústia e a revolta com um governo que mata:

Os soldados de lata e Nixon estão chegando
Finalmente estamos por nossa conta
Este verão eu ouvi os tambores,
Quatro mortos em Ohio

Tem que se abaixar
Soldados estão nos baleando
Isso deveria ter acontecido há muito tempo atrás
E se você a conhecesse
e a encontrasse morta no chão
Como você pode correr quando você conhece?

Ohio

Ouvir a música sem entender do que se fala já é por si só comovente, uma emoção que nos atinge e não se sabe muito bem porquê. Mas conhecer de onde brotam tais vozes penetrantes de “Ohio” é imprescindível para sentir nos nervos o desespero por mudanças e a tristeza dos jovens de 1970 ao contemplar o sangue escorrendo nas ruas. Em um período histórico brasileiro em que se mata em massa com o anticientificismo, com o negacionismo e com as balas da polícia que correm soltas pelas periferias é de relevância incontestável manter obras que há tanto tempo já denunciavam regimes repressores e genocidas.

Nota do editor: Uma nova versão acústica do clássico "Ohio" foi gravada para o álbum "The Times" de Neil Young (set, 2020) uma coleção de músicas em protesto à então possível reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Referências

MARTOCCIO, Angie. Crosby, Stills, and Nash Detail ‘Deja Vu’ 50th Anniversary Reissue.
Rolling Stone, 17 de março de 2021. Disponível em:
https://www.rollingstone.com/music/music-news/crosby-stills-nash-interview-deja-vu-reissue-1140951/. Acesso em: 24 de julho de 2021

SAGGIORATO, Alexandre. Rock brasileiro na década de 1970: contracultura e filosofia hippie. História: Debates e Tendências – v. 12, n. 2, jul./dez. 2012, p. 293-302

BROWNE, David. After the Kent State Massacre, ‘Ohio’ Spoke to the Country — and Helped Save CSNY. Rolling Stone, 3 de maio de 2020. Disponível em:
https://www.rollingstone.com/music/music-features/kent-state-massacre-neil-young-csny-ohio-history-992126/. Acesso em: 28 de julho de 2021

Almost Cut My Hair. Wikipedia, 17 de maio de 2021. Disponível em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Almost_Cut_My_Hair. Acesso em: 28 de julho de 2021.

MASTROPOLO, Frank. 50 Years Ago: Kent State Massacre Inspires CSNY’s ‘Ohio’. UCR Classic Rock & Culture, 4 de maio de 2015. Disponível em:
https://ultimateclassicrock.com/csny-ohio/. Acesso em: 28 de julho de 2021

KENNY-CINCOTTA, Raffaela. 50 Years Ago Today: Four Students Were Killed at Kent State, Inspiring “Ohio” and Changing A Generation. Relix, 4 de maio de 2020. Disponível em:
https://relix.com/articles/detail/50-years-ago-today-four-students-were-killed-at-kent-state-inspiring-ohio-and-changing-a-generation/. Acesso em: 28 de julho de 2021.

FRIEDMAN, Jon. 50 Years Ago Neil Young Wrote a Song That Changed a Generation of Protest Music. Esquire, 27 de junho de 2020. Disponível em: https://www.esquire.com/entertainment/music/a32981855/neil-young-ohio-meaning-analysis-essay-history-50th-anniversary/. Acesso em: 28 de julho de 2021

PATRIN, Nate. I Hear The Drumming: Kent State And Pop Music, 50 Years Later. Stereogum, 4 de maio de 2020. Disponível em:
https://www.stereogum.com/2083147/kent-state-music-crosby-stills-nash-young-ohio/columns/sounding-board/. Acesso em: 28 de julho de 2021

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