Wolf Alice em São Paulo: o que é bom dura pouquíssimo
A regra é clara: um de seus artistas favoritos foi escalado para o line up de um grande festival, como o C6 Fest? Prepare-se para sofrer!
Isso porque, se quiser fazer valer seu ingresso e ver de perto seus ídolos ou ídolas, é preciso abdicar de pelo menos outro show que você gostaria muito de assistir. Além disso, pode ser necessário jejum total de água, álcool e comida a fim de evitar perder o seu lugar em função do number 1. Por fim, nervos, ou melhor, pernas de aço para conseguir ficar parado por horas, defendendo o seu metro quadrado de intrusos que passaram o festival inteiro se esbaldando para tentar desfrutar da (sua) janelinha.
Com o Wolf Alice, lançado para as 18h10 da tarde do sábado 23 do C6 Fest não seria diferente, é claro.

Para quem viu de cabo a rabo o show do “Leonard Cohen on crack” Baxter Dury no aguardo para a grande performance da noite, a recompensa foi um snapshot de 3/4 do Wolf Alice no backstage, curtindo o som. Para mim, a primeira visão de Ellie, o que me desestabilizou como jornalista e emocionou para um c*, pois sou fã desde que a vi cantar no seu peculiar estilo gutural a lá Kate Bush.
Dorflex pra lá e pra cá, as pernas não se aguentando mais, a tenda MetLife transbordando de gente, quando o início do show (que já era curtíssimo – 1h) , foi adiado por 10 minutos em função de uma passagem de som interminável – e que não funcionou, já que o som do violão de Joff foi para as cucuias durante a execução de “Leaning against the wall” . Pena também que, nessa brincadeira, o set list perderia as pérolas “Silk” e “Smile”, debitadas da contagem final para não zicar de vez o cronograma geral de apresentações do sábado.
“Bloom Baby Bloom” é a deixa para a banda assumir o palco, destaque para a plataforma que dispõe a bateria, com um microfone extra para Ellie sensualizar, como no vídeo-clipe, cada acorde daquela que, para mim, é a melhor faixa de “The Clearing”. O público, nessa hora, já tinha se esquecido do atraso (bem como o que ele acarretaria em termos de rendimento do set) e até mesmo os quase stripteases de Baxter Dury.
O mais legal de um show do Wolf Alice é perceber o quanto eles são amigos e o quanto rola de química em cima do palco. Mesmo com 4 álbuns na bagagem e muita rodagem ao redor do mundo pelos últimos 20 anos, é como se o Wolf Alice tivesse acabado de acontecer. Sorrisos, interações, nada soa falso, nem entre eles, nem em relação ao público, que não tem escapatória alguma senão se render ao som pesado e ao mesmo tempo cristalino dessa banda que conjuga como nenhuma outra o stoner com o pop, chegando ao punk, visitando a dance hall music com a fofura de “Just two girls”.
Mas se é humanamente possível citar um, apenas um ponto alto do show, obviamente este fica com Ellie. O aspecto franzino até ilude, mas quando ela abre a boca estamos diante de um monstro. Pensa em Stevie Nicks, na própria Kate Bush. Ellie pertence a este rol e, se não está nele até hoje, é muito por conta do seu estilão desligado, que finge que não se importa com a potência que traz dentro dos pulmões. Existem por aí, hoje em dia, muitas cantoras extremamente técnicas de se tirar o chapéu – como Chappell Roan (me desculpem o trocadilho) – mas das que sabem dosar técnica e estilo, recriando um vocal particular, Ellie É uma das grandes.
Se o segundo e último show do Wolf Alice no Brasil decepcionou em termos de duração, nada de negativo pode ser dito em relação ao que vi. A esperança, agora, é de que realmente cumpram o que nos prometeram em cima daquele palco: de voltar ao país com mais calma, quem sabe, para uma tour solo que passe por outras cidades fora do eixo Rio/SP. Até lá, “I’ll be fine”!
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SET LIST DO WOLF ALICE EM SÃO PAULO:
- Bloom Baby Bloom
- White Horses
- Formidable Cool
- Just Two Girls
- Leaning Against the Wall
- How Can I Make It OK?
- The Sofa
- Bros
- Yuk Foo
- Play the Greatest Hits
- Lipstick on the Glass
- Don’t Delete the Kisses
