Lemonheads: 30 anos de “Hate your Friends”

Mesmo que NÓS envelheçamos, acho que o punk-rock nunca envelhecerá. (Ben Deily)

A paixão pelos Lemonheads começou aos 15 anos, em 1992, e um vinil de “It’s a Shame About Ray”. Eu me lembro até hoje de percorrer os andares do Shopping Del Rey na dúvida se eu deveria ou não gastar meus últimos centavos num disco que tinha apenas duas músicas conhecidas: “Confetti” e a famigerada cover de “Mrs. Robinson”. Por uma dessas ironias do destino comprei – e mal sabia que aquele disco iria mudar toda a minha vida, tornando-se um companheiro nos muitos momentos de solidão dentro do ônibus ou no escuro do quarto escutando repetidamente “Rudderless” e a terna “Frank Mills”.

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Por que “Hate your Friends”?

A ideia de um artigo sobre os 30 anos do primeiro álbum oficial da minha banda favorita, os Lemonheads, teve início com uma rápida conversa em fevereiro deste ano com Benjamin Robert Deily, ou simplesmente Ben Deily, um dos principais responsáveis pelo vigor ainda atual das letras e sonoridade de “Hate Your Friends” – uma bomba bastante apropriada no contexto da gestão Trump, que voltou a dividir os Estados Unidos.

Um belo dia, recebo uma mensagem de Ben em meu Facebook, dizendo que ama o Brasil, que se lembra de noites regadas a cachaça durante um festival de cinema “Bumba Meu Boi” e que seria um prazer conversar sobre os Lemonheads. A partir daí, desenvolvemos alguns bate-papos nos quais Ben – hoje no Varsity Drag – demonstrou um pouco do seu lado desprendido – sim, ele seria descartado dos Lemonheads alguns anos depois, configurando uma suposta rivalidade que se transformaria até em título de bootleg (“I’ll do Ben” …), mas que hoje, como saberemos, comprovou-se acabada.

Ben e Evan - Arquivo Pessoal Ben Deily

Evan e Ben – Arquivo Pessoal Ben Deily, 1985

“Sim, eu tenho a impressão de que as pessoas ainda respondem a aquelas canções. Vai saber, eu ainda recebo e-mails de fãs realmente gentis e, ocasionalmente, vejo alguém como Ryan Adams ou Billie Joe Armstrong (Green Day) colocando fotos no Instagram daquele álbum. É um sentimento maravilhoso e eu sou muito grato por ter participado de algo que significou alguma coisa para pessoas que amo e respeito. Além disso, eu e Evan ainda estamos cogitando tocar algumas daquelas canções sempre que pegamos uma guitarra…na cozinha de alguém ou mesmo no palco”, diz Deily.

O músico e então produtor de “Hate Your Friends”, Tom Hamilton, relembra alguns fatos interessantes do primeiro encontro que teve com os Lemonheads e das gravações ao estilo “Do It Yourself” dos afiados 24 minutos e 14 segundos do álbum, naquele emblemático final dos anos oitenta em Boston:

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Eles ainda estavam no colégio e eu tinha 29 anos. Eles me impressionaram com o conhecimento que tinham sobre o que eu considero hoje o verdadeiro punk rock clássico, como MC5, Stooges e, claro, toda aquela onda de 77/78 do Reino Unido. Nós gravamos primeiro o que seria considerado depois o lado 2 de Hate Your Friends no porão onde eu morava. O quarto onde gravamos a bateria era basicamente uma caverna minúscula de carpete.  Já a segunda sessão de gravações foi feita no estúdio, daí a explicação para a grande diferença entre o som do lado 1 e lado 2.

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Sim, antes de se tornar o queridinho do grunge alternativo nos anos 90, Evan Griffith Dando, o mesmo que lançaria um petardo LGBT quando esse termo nem existia ainda (“Big Gay Heart”) foi punk-rock, tendo escrito a faixa título de Hate Your Friends, um hino de pura rebeldia:

You got problems you can’t solve, it’s enough to make you hate your friends

Depois de lançar um eclético álbum de covers, “Varshons”,  e se apresentar ao lado de Juliana Hatfield numa pequena tour em meados dos anos 2010, Evan Dando vive hoje recluso com a namorada em Martha’s Vineyard, e esporadicamente deixa o ostracismo para realizar um ou outro show acústico. Na falta de respostas do principal personagem dessa história (sim, houve tentativas frustradas), quem se habilitou a contar um pouco sobre uma das primeiras apresentações de Evan com os Lemonheads, no extinto clube Rat, de Boston, foi a sua mãe e fã, a adorável e acessível Susan Dando:

Susan e Evan

Susan e Evan

Sabe-se lá porque a banda baniu todos os pais de irem ao show, exceto eu (descobri mais tarde que eles sabiam que eu iria de qualquer jeito). De toda forma, eu não só fui, como após dar um jantar para 20 pessoas onde vendi um monte de “Laughing all the way to the cleaners” (o primeiro e mais raro vinil da banda), resolvemos todos irmos para o Rat. Pobre Ev (an). O show foi ótimo. Eu nunca vou esquecer. Uma das minhas amigas, Renata, disse pra mim: “Susan, você fez algo maravilhoso!”, embora tenha sido constrangedor para o Ev.

Evan e Susan (arquivo pessoal Susan Dando)

Evan e Susan

Quanto a um revival do Lemonheads punk da Taang Records, é uma incógnita. Hoje em dia, Ben Deily não descarta nova parceria como brother Evan, a quem ele considera um de seus compositores favoritos.

lemonheads

Sim, nós definitivamente conversamos e tocamos juntos sempre que temos a chance – temos feito isso nos últimos 12 anos ou mais. Também, como você deve saber, nós gravamos algumas canções com Juliana Hatfield e Ryan Adams aqui, em Los Angeles, alguns anos atrás, mas esse projeto esfriou. Então, de novo, só o tempo dirá. Enquanto isso, tem sido muito divertido estar no palco com Ev e companhia para tocar as nossas velhas canções, o que fizemos poucas vezes no passado recente (em Chicago, Boston, Rhode Island, Martha’s Vineyard).

Ficha técnica de Hate Your Friends

  • Data de lançamento: Janeiro de 1987
  • Gravadora: Taang! Records
  • Copyright: (C) 2006 Taang! Records
  • Duração Total : 24:14

The Blake Babies: banda irmã

John P. Sthrom

John P. Sthrom

Outra banda seminal de Boston que teve enorme influência de “Hate Your Friends” foi o Blake Babies. O trio, que recentemente se reencontrou para o lançamento de “Earwig Demos”, era composto por amigos de escola: Juliana Hatfield, Freda e John Sthrom, o guitarra/vocal que, em 1997, juntaria-se definitivamente ao staff dos Lemonheads durante a tour de Car Button Cloth. Sthrom relembra o primeiro encontro com a banda de Evan e Ben:

Nós encontramos os Lemonheads em 1987, na época dos nossos primeiros shows. Quase que imediatamente eu me juntei à banda para tocar bateria, e tocar com esses caras realmente supriu um desejo que eu tinha de tocar uma música mais agressiva, em alto e bom volume. Eu me juntei a eles logo depois da gravação de “Hate Your Friends” e eu realmente me apaixonei por aquele álbum. Eu tinha o álbum gravado numa fita cassete que ficou gasta de tanto tocar.  A primeira vez em que eu me sentei para tocar a bateria, eu sabia cada faixa de cor.

 

Sthrom, que embora tenha se casado, com filhos, e voltado para a faculdade de direito, diz que ainda arranja tempo para gravar os discos solo e eventualmente tocar, seja como músico de apoio ou nos Blake Babies. Para Sthrom, “Hate Your Friends” é um dos álbuns que mais ama e que o inspirou a fazer música.

Não existe sentimento melhor do que querer gostar de um disco, ter o disco entregue e escutar inúmeras vezes. Foi divertido ver a influência desse álbum, primeiro localmente e depois ao redor do mundo. É fato que ele foi uma grande influência para a música dos anos 90, incluindo Green Day. Frequentemente eu fico surpreso ao ver que muitas pessoas fazem referência ao Hate Your Friends como um álbum seminal e importante. Com certeza, ele foi para mim.

Você deve estar se perguntando acerca de Juliana Hatfield, que além do Blake Babies chegou a integrar algumas formações dos Lemonheads. Bem, embora eu a tenha procurado por meio do prestativo Sthrom, ela é tão zelosa de sua privacidade que procura evitar entrevistas. Enquanto ela usar o seu tempo para fazer grandes álbuns, está bom demais.

Evan Dando e o som de Boston

Evan sempre teve uma mistura interessante entre talento, carisma e inteligência. Quando ele se permite colocar todos esses três elementos em qualquer canção ou momento musical, o cara é  imbatível. (Ben Lee)

A descrição do músico australiano, budista e amigo de infância Ben Lee resume bem a personalidade controversa e, ao mesmo tempo brilhante de Evan Dando, um cara que, apesar de não lidar tão bem com seus demônios, nunca deixou de lado a doçura em relação à família (especialmente em se tratando da mãe e da irmã, Holly) e amigos como Ben – que chegou a dedicar a Evan  “I Wish I Was Him” – e Tom Morgan.

Tom Morgan, sem dúvida, é o parceiro de primeira hora de Evan, com o qual divide boa parte das faixas do antológico “It’s a Shame About Ray”, além de outros álbuns menos expressivos. A identidade entre os dois é tanta que fica realmente difícil definir qual música foi escrita por Tom e qual foi por Evan. “Impractical Joke”, do Smudge, banda do também australiano Tom Morgan, é uma das várias canções que Evan adora tocar em seus shows e que praticamente incorporou no seu set list.

Impractical joke foi escrita bem rapidamente e aconteceu de uma vez só. As melhores canções normalmente acontecem assim. Eu queria escrever uma música estilo Paul westerberg/Replacements e é por isso que eu canto “trocar seu marcador de lugar comigo” na letra. Os Replacements se intitulavam Os Marcadores de Lugar, então talvez tenha sido uma coisa subconsciente. Mas tudo veio muito rápido. O tempo que gasto para cantar é o tempo que gasto para escrever. (Tom Morgan)

Apesar da distância, Tom Morgan reconhece a influência que os Lemonheads e outras grandes bandas de Boston entre os anos 80/90 tiveram sobre o Smudge, como o Dinosaur Jr. do mago J. Mascis:

Dinosaur Jr foi a maior influência sobre o Smudge quando começamos.  Nós queríamos criar um híbrido de Dinosaur Jr/Descendents. Aqueles primeiros três álbuns do Dinosaur Jr foram incríveis para mim.  Eu não ligava muito para Black Sabbath, Led Zeppelin ou Neil Young, então eles eram como algo que eu nunca tinha escutado antes. Os solos eram tão bonitos e as letras tinham essa qualidade misteriosa que só parecia fazer sentido enquanto você escutava a música.

Sobre a influência que os Lemonheads e os Blake Babies teriam exercido sobre o rock alternativo mundial, John P. Sthrom comenta pontualmente:

Quando as duas bandas começaram, uma influenciava a outra e ninguém gastava muito tempo pensando nisso. Se eu penso sobre influência agora, é difícil dizer. Eu acho que a Juliana pós-Blake Babies e o Lemonheads do início dos anos 90 tiveram um impacto muito maior na música do que o que fizemos nos anos 80.

Era It’s a shame about Ray e Come on Feel the Lemonheads

Por falar em anos 90, foi graças a essa versão cover de Simon & Garfunkel, os Lemonheads nunca mais foram os mesmos. Literalmente. Hoje um escritor renomado e longos e ralos cabelos brancos, David Ryan se lembra dos anos dourados dos Lemonheads, tempos em que ele próprio se sentia um “hot shot”. Ryan fez parte da formação clássica da banda, ao lado de Evan e Nic Dalton, e embora tenha perdido contato com Evan, acredita que ainda sejam amigos.

David Ryan (3 à dir) Vox Magazine

David Ryan (3 à dir) Vox Magazine

Eu não posso acreditar o quão sortudo fui por encontrar algumas das pessoas que conheci. Somente estranhos aleatórios que se tornaram amigos ao longo dos anos. E, honestamente, eu nunca senti nada tão maravilhoso quanto estar no palco em algumas noites. Existia toda essa urgência que não pode ser reproduzida, na verdade. Sou feliz por ter viajado por tantos países diferentes, mesmo que não houvesse tempo suficiente para aproveitar cada lugar.  Mas realmente, as poucas amizades que restaram daquele tempo e o sentimento de tocar no palco para um monte de gente é o principal que tirei disso tudo.
David hoje

David hoje

David Ryan é hoje descrente com relação à indústria musical, que ele enxerga como muito diferente dos tempos em que as gravadoras mandavam e desmandavam: ” O sistema de entrega e o jeito pelo qual eles tiram vantagem dos artistas mudou. Parece que sempre haverá alguém entre o artista e o mundo inteiro para controlar o acesso a ele, apesar dos tempos em que vivemos hoje. No meu tempo eram estações de rádio, gravadoras e “produtores independentes”. Hoje, é o big data. Eu não sei se estamos em condições melhores ou piores. Antes, as gravadoras te transformavam em escravos, mas eles bancavam o orçamento para turnês (que hoje é o artista quem paga), etc. Para ser sincero, eu amava a ideia de entrar num grande estúdio para gravar, observando um monte de álbuns de ouro e platina dos meus ídolos nas paredes e fingindo que eu era um fodão por uma semana. Eu acho que essa experiência se perdeu nos dias de hoje, já que você pode fazer tudo isso num laptop.  Mas ultimamente muitas pessoas estão fazendo o que estão fazendo porque eles amam criar música. E o meu próprio entusiasmo naquele tempo foi maravilhoso enquanto eu penso que poderia ter feito isso sob outras circunstâncias“, confessa David.

Evan Dando é basicamente o único componente fixo da banda ao longo dos anos e, apesar de já ter dito que se sente seguro por trás do nome “Lemonheads”, chegou a lançar dois maravilhosos álbuns solo: Live At The Brattle Theatre e Baby I’m Bored (que acaba de ganhar um reissue com lados b e sobras do estúdio).

Era Car Button Cloth

O universo de sexo, drogas e rock and roll sempre fez parte da trajetória errática dos Lemonheads. Após a explosão de “It’s a shame about Ray” e “Come on Feel The Lemonheads”, Evan pirou e foi parar numa rehab para desintoxicação. O resultado foi “Car Button Cloth”, que não tinha a mesma inspiração dos álbuns anteriores, mas significava uma retomada de Evan. O guitarrista Kenny Lyon, que se considera um combatente ao lado de Evan, relembra as conturbadas turnês de 97 (que inclusive passaram pelo Brasil):

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Os Lemonheads daquele tempo eram uma  organização da pesada. Pelo menos em relação à quantidade de bebidas e cigarros…Mas essa é a natureza do negócio. (Kenny Lyon)
Após o meteoro “Car Button Cloth”, Evan reativaria os Lemonheads mais uma vez para o álbum intitulado “Lemonheads” de 2007. O curioso dessa história é que a reativação teve muito a ver com a participação de Evan em festivais brasileiros.
Lemonheads como atração principal do "Coca Cola Music".

Lemonheads como atração principal do “Coca Cola Music”.

Como os organizadores inseririam no cartaz a atração principal como “Lemonheads”, Evan viu nisso uma oportunidade de reaver sua velha banda. Uma banda que, acima de tudo, sempre marcará as pessoas pela beleza da música, conforme assinala em cheio a mãe de Evan, Susan: “Elas são muito sensíveis e amáveis“.
Susan e Evan 2017 (arquivo pessoal Susan Dando)

Susan e Evan 2017

We love our drug and talented buddy, Susan. E você?

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